Mamãe não é tonta, feijão. Nem velha.
Não vivi na época da pedra polida, juro que não.
Mas preciso te prevenir sobre certos artefatos que existiam nesse nosso mundo antes de você chegar.
Pior mesmo vai ser falar sobre os que não existiam.
Pasme bebê, mamãe e papai faziam trabalhos da escola antes do advento do Google. Pior feijão, não existia computador, muito menos internet.
A gente ia numa tal biblioteca e ficava pesquisando em vários livros, enciclopédias e dicionários até juntar o máximo de informações possível sobre determinado tema.
Fica a dica, pequeno: Internet é a oitava maravilha do mundo mas existe vida além dela.
Mamãe e papai vão fazer um esforço descomunal pra que você desenvolva interesse por diversos aspectos em inúmeras vertentes.
Ou seja, não se feche. Não se trave. Seja uma esponja e absorva o máximo que puder desse mundão que nos cerca.
Celular também é maravilhoso. Delícia estar próximo de todo mundo o tempo todo. Mas a gente cresceu sem ele. E sobrevivemos. Portanto não seja escravo dessas tecnologias todas. Use-as ao seu prazer e benefício mas não deixe que te dominem.
Vivíamos em um mundo pré digital, meu pimpolho. Nem sei se você consegue entender o que isso significa. Mas as músicas tocavam em outras mídias. Era um tal de LP e fita cassete. O som era péssimo mas a gente se divertia.
As fotos vinham de um filme que a gente colocava na máquina. Era um lance bem esquisito. Não sabíamos se as imagens tinham ficado boas até revelarmos. Imagine, pequeno, uma câmera sem visor? Pois bem, era assim.
O processo da revelação era outro drama. Demorado, complicado e perecível. Converse com vovô Ricardo sobre isso. Ele tinha um laboratório de revelação e vai te contar todos detalhes.
Os carros não tinham ar-condicionado e nem direção hidráulica. Muito menos vidros elétricos. Mas a gente viajava a valer. Talvez não fosse tão calor no rio de janeiro ou talvez nossa tolerância fosse maior.
Não tinha árvore de natal na lagoa, bebê. Aliás, quase não existia lagoa, filho.
Era bagunçada, suja e vivia inundada. Nada de parcão, quiosques gostosos ou pier maneiro no qual, prometo, teremos ótimos momentos nessa nossa vida juntinhos.
E os brinquedos? Feijão querido, não tinham tanta luz, brilho, motor, som e glamour quanto os seus vão ter, aposto. Mas mesmo assim cumpriam sua função muitíssimo bem.
Andávamos de bicicleta, pulávamos no pogobol, corríamos nas brincadeiras de pique isso e pique aquilo. Nos reuníamos para altas partidas de jogo da vida ou banco imobiliário.
Bons tempos, bebê.
Hoje em dia a brincadeira vai ser outra: Trocar fraldas, fazer papinha, dar banho e te ensinar sobre esse bando de bobagens que insistem em viver na minha cabeça.
Seja paciente com a mamãe, ela é meio descompensada.
