Um belo dia comer deixa de ser um prazer, ou um desprazer no caso das dietas malucas, e vira uma obrigação.
Você descobre que tem um serzinho dentro de você que se alimenta exatamente do que escolhemos colocar na boca.
Então aqueles dias perdidos regados ao mix de coca-cola com cheetos viram uma doce lembrança distante.
É muito estranho pensar nesse grau de dependência.
O oxigênio que chega ao bebê é o que eu respiro, meu bem. Quando fico nervosa e libero adrenalina o bichinho sente também e seu micro coração acelera na hora. Quando resolvo correr na garagem, brincando com Ozzy, feijão se sacoleja todo aqui dentro. Quando deito o bebê se esparrama naquela piscina de líquido amniótico.
Reza a lenda, e os estudos sobre embriologia, que a essas alturas o pequeno já é capaz de ouvir e absorver sons, palavras e estímulos.
Abro um pequeno parênteses de comunicação mãe-bebê: Feijão, não se importe com aquela gritaria de hoje de manhã. Não, sua mãe não teve o dedo arrancado por um jacaré. Ele apenas bateu na quina da cama. Bem desagradável, você vai descobrir algum dia.
Aquele palavriado é feio, bebê. Mostra como sua mãe é uma mulher sem requinte e classe. Vou me esforçar mais, prometo.
Pois bem, todo esse prólogo foi apenas para explicitar minha revolta com a galera que separa os nutrientes dentro da barriga.
Sei que o feijão é a estrela maior, que tudo de melhor vai pro forninho e blábláblá.
Mas gente, precisa sobrar um tantinho pra mamãe aqui também.
Ando me sentindo cansada, prostrada e anêmica.
Feijão Cintra Deane,
Sei, bebê, que esse sobrenome tá meio esquisito mas a gente vai acabar se adaptando, tá?
Vamos ao que interessa, pequeno:
Se algum dia você inventar a modinha besta de não querer brócolis ou alface lembre-se que mamãe comeu fígado na sua gestação, tá?
Pior ainda, tomou injeções de ferro, sweet.
Se mete com essa doida tirânica aqui pra você ver só, ahaaaaaa.
Anotação mental: Aprender a não ser uma déspota com meu pimpolho. Urgentemente... Pra ontem.
